Segunda-feira, Agosto 17, 2009

"Nódoas negras sentimentais"


Todos nós temos marcas deixadas por contos de amor sem final feliz, histórias mal resolvidas ou que nunca chegaram a começar. Há quem coleccione pequenos hematomas sentimentais, que desaparecem passado algum tempo. Muitos sofrem com a dor causada por verdadeiras feridas incisas, que, por vezes, deixam profundas cicatrizes. Há também quem se queixe de verdadeiras fracturas expostas, de cheiro pútrido, que nos perseguem durante anos sem cicatrizar. Estas são as mais difíceis de curar. E passados uns anos, quando pensamos que já recuperámos, voltamos a sentir a mesma dor lancinante, que nos faz cerrar os pulsos e tentar aguentar, calados, aquele sofrimento tão familiar e indesejável.


Eu tenho algumas cicatrizes que fui coleccionando ao longo dos anos. Umas profundas, outras quase superficiais, no entanto, lembro-me o que causou cada uma delas. Lembro-me de cada marca, cada golpe, cada queda... São bem diferentes daquela cicatriz que tenho no joelho; lembro-me dela desde sempre, mas já não sei como nem porquê ela apareceu. Perguntei à mãe, e ela também não se lembra: "Sei lá eu! Andavas sempre a magoar-te!" Destas, eu lembro-me de todas, sem precisar que ninguém me lembre porque raio anos depois ainda dói...
- Parece que continuo a magoar-me com muita frequência, mãe.
- Deixa lá, filha. Isso passa, passa sempre.
- Já estou demasiado danificada para tentar sarar as feridas e recomeçar...

S.M.

Quinta-feira, Julho 30, 2009

5. Perspectiva bidireccional

Hoje beijámo-nos... Aliás, acho que fui eu que o beijei a ele... Pelo menos fui eu quem deu o primeiro passo.
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Já tínhamos ficado várias vezes presos a um quase beijo, entre sorrisos e olhares embaraçados, mas nunca ninguém se atrevia a fazê-lo... Sabes como eu sou... deixei-me levar e aconteceu... Eu sabia que ele nunca iria fazê-lo, já o conheço demasiado bem. Tem namorada, para todos os efeitos, e, além disso, é demasiado cauteloso e ponderado para tomar a iniciativa de se envolver com alguém... principalmente comigo... Acho que o assusto... Já te disse, mano, eu não sou o tipo de rapariga para quem o J. olhe duas vezes na rua. Tenho um aspecto demasiado normal para ele, sou exactamente o oposto daquilo a que ele está habituado. Acho que é isso que o confunde e simultâneamente o deixa fascinado.
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O J. está habituado a miúdas de cabelos compridos, branquelas e vestidas de preto. Eu sou o oposto disso tudo... Nem sequer temos muito em comum. Acho que só mesmo o género de música que ouvimos, e mesmo assim passamos horas a discordar um com o outro relativamente às incomparáveis prestações de Tarja ou Anette como vocalista dos Nightwish. Discordamos acerca de quase tudo, mas entendemo-nos bem, apesar de tanta divergência. Acho que nem ele próprio entende que raio viu em mim! Tal como eu também não entendo porque me fui envolver com um tipo como ele...
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Não posso dizer que está perdidamente apaixonado por mim, tal como eu não estou perdidamente apaixonada por ele, mas sei que mexo com ele, tal como ele mexe comigo. Não sei se da mesma forma, mas sentimos alguma coisa ou pelo outro. E o beijo de ontem foi a prova disso mesmo.
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Pela primeira vez depois da morte do Pedro senti que beijar alguém fazia sentido. Não te sei descrever o que aconteceu de outra forma, mano, mas senti um perfeito equilíbrio enquanto nos beijávamos, como se não estivéssemos a cometer um erro e o J. não tivesse acabado de trair a namorada por causa de um impulso meu... Limitámo-nos a sorrir um para o outro e eu saí do carro sem dizer uma única palavra... Eu e as minhas atitudes maduras e racionais! Aos 29 já devia ter mais juízo...

Não sei como vai ser amanhã... Nem sequer sei ao certo se ele ainda anda com a tal Rute. Nunca mais falámos disso. Mas não deve gostar muito dela. Isso ajuda a que não me sinta tão culpada...

S.M.

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- Vou acabar com a Rute, Kapa...

- Agora? Tens a certeza, meu?

- Tenho. Já o devia ter feito há mais tempo, faltaram-me tomates para o fazer... Já sabes como eu sou...

- Andas com a Sílvia?

- Não sei... Ontem beijámo-nos. Aliás, ela beijou-me. Acho que foi o empurrão que precisava para acabar com a Rute. Acabaram-se as dúvidas.

- Tu é que sabes, meu...

- Pode não dar em nada com a Sílvia, mas a verdade é que já não faz qualquer sentido eu continuar com ela... Cada vez me convenço mais que foi um erro andar com ela...

- Porquê? Não venhas com essas cenas! Tu gostavas dela meu.

- Pois gostava, Kapa. Mas acho que só deixei que ela se aproximasse de mim para ver se esquecia a Andreia. E depois, até era bastante cómodo andar com a Rute. É uma miúda fixe, não me exigia muito, mas também não dava muito de si... Acho que nunca nos percebems muito bem um ao outro. Ela nunca me entendeu e nunca fiz grande esforço para que isso acontecesse... Mas, não a culpo, não tem nada a ver!

- Então, mas gostas mesmo da tal Sílvia?

- Não sei muito bem... Acho que sim. Ainda estou a tentar perceber o que sinto por ela e a tentar percebê-la...

- Acho que estás apanhado, meu!

- Sei lá, Kapa... A Sílvia é diferente de todas as miúdas com quem já me envolvi... Há qualquer coisa nela que me desconcerta... É o tipo de miúda que aprentemente não me diz nada, mas assim que a conheci... Ela fez-me olhar para as minhas convicções e verdades de uma outra forma. Aparentemente nem temos muito em comum... Até hoje não percebo por que raio fiquei a olhar para ela naquele dia... E depois, tê-la encontrado naquele bar... Tu sabes que não acredito nessas merdas, mas não deixa de ser estranho... É como se ela me visse de uma forma diferente das outras pessoas. Não estou habituado a que me deixem desarmado, e ainda não lido bem com isso...

- É melhor falares com a Rute... É melhor para os dois... Se já não gostas dela...

- Sim, falo com ela hoje. Acho que ela fica bem, é isso que me deixa mais tranquilo...

Terça-feira, Julho 28, 2009

Em cada sorriso silencioso...



Escondes-te atrás de uma postura de menino crescido e muito seguro de si, mas não passas de um miúdo perdido à procura de alguém que te dê colo, de alguém com quem conversar quando chegas a casa cansado, de alguém a quem te abraçares quando acordas durante a noite. Precisas sobretudo de alguém que cuide de ti, mas que também te deixe cuidar dela. Precisas te ter alguém para proteger, mas que também te saiba proteger a ti, que te abrace quando te sentes perdido e te faça sentir pequenino e seguro quando te envolve nos seus braços.


Tens um dos olhares mais simples e transparentes que conheço, talvez por isso seja tão fácil olhar para ti e ver-te como tu és. Às vezes olho-te e vejo um jogo de contradições, de incongruências e paradoxos. Conjugas na perfeição a tua visível força exterior com uma delicadeza quase inocente. À primeira vista, o teu olhar de zangado quase consegue enganar os mais distraídos e depois vem a surpresa quando te vemos sorrir. O teu olhar consegue ser tão meigo como o teu sorriso, capaz de nos desarmar ao primeiro esgar.
S. M.

Terça-feira, Junho 30, 2009

4 - Nova perspectiva


A minha vida mudou tanto, mano... Parece que nestas últimas semanas tudo ganhou um novo significado, acho que voltei a sentir... Ainda não sei muito bem o que sinto, mas é como se tudo tivesse voltado a fazer sentido outra vez.

Lembras-te de ter falado de um quase acidente que tive por causa de um tipo com quem me cruzei na rua, muito parecido contigo? Há umas semanas atrás a banda dele foi tocar ao bar onde trabalho aos fins-de-semana. O concerto já tinha começado há um tempo considerável e eu andava tão absorta entre copos e garrafas que nem tinha olhado para a banda. Entretanto uns versos de uma música prenderam a minha atenção: "Não há histórias de amor para sempre, porque perdeste o teu príncipe e já só te resta o amor que sentes, solitário e desesperado". Olhei e vi-o... O mesmo tipo, o mesmo género de roupa, os olhos pintados... Voltei a ver-te. "Nada acontece por acaso", foi a primeira coisa que pensei enquanto sentia um arrepio frio a percorrer-me a espinha.

No fim do concerto sentou-se ao balcão e pediu um gin tónico. Ficámos uns instantes perdidos no olhar um do outro e quando dei por mim estávamos a conversar sobre a banda que ia actuar no dia seguinte e não nos calámos mais. Desde esse dia, temos saído juntos, ele passa por aqui de vez em quando. Falamos de tudo e de nada, falamos do tempo, do jogo de futebol do dia anterior, da cicatriz que tenho no dedo mindinho desde os oito anos, do final do filme que acabámos de ver... Não interessa! A verdade é que ficamos horas à conversa sem dar pelo tempo passar. Hoje vamos beber um copo às docas. Ele perguntou-me se podia ir sem saltos, diz que é melhor abraçar-me quando ando descalça lá por casa. Perguntei-lhe se era assim tão ameaçador eu ser ligeiramente mais alta que ele quando uso saltos. - Gosto mais de abraçar-te e sentir-te pequenina ao meu lado. Eu sorri e disse-lhe que ia fazer o sacrifício.

Não sei o que sinto por ele, mano... Não sei se gosto dele, mas voltei a sentir qualquer coisa. Sabe bem rir-me com ele por tudo e por nada, sim, porque afinal tem um humor contagiante, que em nada se coaduna com o seu ar de niilista! Sabe bem voltar a sentir ansiedade quando faltam 15 minutos para ele me vir buscar... Sabe bem sentir-me a corar quando ele me apanha a olhar descaradamente para ele... Sabe bem estar com ele. Não sei se gosto dele, ou do que ele me faz sentir.... mas gosto dos momentos que passamos juntos. Dou por mim a rir-me sozinha das piadas dele. Ele faz-me bem... Acho que voltei a ser eu.

Não sei se gosto dele... Não sei se é só meu amigo... Não sei se me sinto atraída por ele (se calhar era mais fácil chegar a alguma conclusão acerca deste assunto se ele não fosse tão parecido contigo!) E sim, no início tinha a sensação que te voltava a ter comigo quando estava com ele. Mas, apesar das óbvias semelhanças físicas, vocês são muito diferentes. Hoje sinto que gosto de estar com J. pelo que ele é, pelo que sou quando estou com ele... Mostrei-lhe uma foto tua e ele disse que de facto podia ser uma foto dele há uns anos atrás. - Mas eu sou muito mais bonito! - assegurou, enquanto me devolvia a fotografia e olhava para mim com um ar de quem estava em pânico, porque tinha a certeza que eu ia chorar. Não chorei.

Falamos muitas vezes de ti, também já falámos do Pedro, do acidente, falámos até do meu medo do espelho e nunca chorei. Consigo falar com ele sobre tudo, sobre assuntos que guardei sempre para ti e para o Pedro, e ele percebe sempre, diz sempre aquilo que eu quero ouvir.

Nunca aconteceu nada, nunca nos beijámos. Já houve alturas em que trocámos olhares tão cúmplices que quase aconteceu, quando ele me abraça, mas nunca nenhum de nós deu o primeiro passo. E também nunca falámos do quase acidente. Tenho a certeza que ambos sabemos que ficámos a olhar um para o outro daquela forma, mas nunca falámos sobe o assunto. Pergunto-me porque razão terá ele olhado para mim daquela maneira... Eu tenho uma desculpa, vocês são parecidíssimos, mas e ele? Qual será a desculpa dele? Eu não faço nada o género dele, acredita!

Quando estamos juntos é como se fossemos um mistério um para o outro. Ele está sempre a surpreender-me. Quando está comigo é tão diferente do J. que está em palco... Vai-se o olhar triste e melancólico e fica um sorriso lindo e contagiante. E ele diz o mesmo de mim... Quando entrou no meu quarto perguntou-me se a minha vasta bibliografia sobre vampiros e a discografia de Lacuna Coil e Muse eram mesmo minhas. Diz que saltos altos e roupas de "menina bem" não combinam muito com o que eu tenho cá dentro.

Não sei onde é que isto vai parar... mas estou muito bem assim. Acho que estamos os dois. Só há um pequeno "mas", no meio desta história toda... Ele tem namorada... Falou-me dela logo quando nos conhecemos. Uma tal de Rute. Está cá a estudar e vai embora aos fins-de-semana. Por isso passamos tanto tempo juntos. Mas mesmo durante a semana ele vem ter comigo. Não pergunto como faz para poder estar comigo com a namorada cá. E ele não voltou a falar dela. Finge que ela não existe, aliás, acho que fingimos os dois...
S. M.

Quarta-feira, Junho 24, 2009

Afinal não é bem como eu pensava...

- Dá pra trocar?
- Não. Foi a senhora que escolheu...
- Então queria apresentar uma reclamação. Isto não é bem o que me pareceu inicialmente...


Há pessoas que acabamos de conhecer e nos dizem muito. Parece um cliché, é certo, mas temos a sensação que as conhecemos de algum lado, há já muito tempo, só não sabemos de onde.

Outras há que nos fazem experimentar as mais variadas sensações - medo, curiosidade, inveja, pena, repugnância, admiração ou antipatia.

Ainda não me decidi o que sinto por ti, depois de tantos meses, mas talvez seja pena...

Olho-te, sempre tão seguro de ti, sentado nas escadas de cigarro entre os lábios. Ouço-te dizer mais uma das tuas graçolas patéticas que mais não são do que piadas que encontras na Internet, onde passas grande parte desses teus dias amorfos e sem sentido. A verdade é que as piadas até têm graça, mas a maior parte das vezes não consigo sequer forçar-me a esboçar um sorriso, porque não consigo encontrar qualquer graça a esta tua tacanhez...

O que te define são piadas e frases que já alguém disse. Respondes às perguntas que te fazem, quando te vêem cabisbaixo, com sentimentos que não te pertencem, com frases pomposas que dizem tudo e não dizem nada, frases de alguém que pelagias para dar à tua vida um tom tão colorido e alheio. De tantas vezes que as lês, de tantas vezes que as dizes, passam a ser tuas.

Defines-te como um homem com grande capacidade de superar as rasteiras que a vida teima em te pregar, como alguém muito seguro de si e inteligente. Mas quem te conhece dificilmente te vê como tu te vendes.

Falas e a tua vida soa-me a uma mentira que tu já assumiste como verdade. Só precisas de mentiras, sorrisos, piadas e frases feitas e vendes uma imagem de ti que engana qualquer um à primeira vista. És como uma réplica mal acabada de outras vidas e outro mundo, um mundo que não é o teu.


Não, obrigada, não quero comprar.

Quarta-feira, Junho 03, 2009

Quase, quase perfeito...




Olhou para dentro de si mesma e viu raiva, angústia e medo. Viu sangue e escuridão. Viu rancor e lágrimas. Lágrimas que chorara num passado longínquo, tão longínquo que mal o recordava, apesar de ainda sentir o sabor das lágrimas na sua alma, ainda sentir a dor que lhe dilacerava o ser, perdido e decrépito entre gastas mortalhas. Quis sair de si e falar-lhe, quis gritar-lhe que não se fosse... Quis tocar-lhe e senti-lo dentro de si. Quis olhá-lo nos olhos e sorrir-lhe, mas ele já lhe tinha virado costas, já tinha abandonado à pressa todos os recantos secretos que só a eles pertenciam.
Recordou-o e lembrou-o cobarde demais para ficar ao seu lado, lembrou-o perfeito demais para simplesmente se deixar levar pelo que sentiam. Não lhe chegava o que ela lhe dava. Não lhe chegava o que ela nunca lhe exigiu. Queria mais, queria sempre mais.
Sabia-o correcto, mas não o queria deixar ir. A sua altivez consumia-a, tornava-a pequena e exígua, frágil e efémera. Debatia-se para lhe dizer adeus, mas sentia já a sua ausência alojada em si, sentia medo da solidão que a ameaçava como um espectro real.
Não fossem as suas frívolas vontades e desejos, as suas futilidades e interesses cobardes, e ele era quase, quase perfeito...

Quarta-feira, Novembro 12, 2008

Espera por mim...


Talvez o verdadeiro sentido na nossa existência se encontre no turbilhão de sentimentos que nos assolam... Talvez os sentimentos que nos assolam mais não sejam do que o resultado do turbilhão de sentidos que tem a nossa existência...
Talvez haja um motivo plausível e sóbrio para me teres deixado... Agora vejo a tua morte como uma piada irónica da vida. Porque quatro anos foi tão pouco... Porque quatro anos foram suficientes para apagar de mim tudo o que de menos bom fizeste. Porque quatro anos foi tão pouco... Porque em quatro anos deste tudo o que nunca tinhas dado... Porque em quatro anos recebeste tudo o que nunca sonhaste ter...

Contámos os anos, os meses, as semanas, os dias e as horas... contámos a tua idade. Em tantos anos de vida, quatro anos são tão poucos... E preparámo-nos para ficar sem ti, e despedimo-nos de ti. Magoou na mesma... não queria que tivesses ido...

Talvez o verdadeiro sentido da nossa existência seja a morte... Talvez a morte seja o único sentido da nossa existência...
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Ângela M.

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Ao meu Avô, a quem eu amo muito e de quem tenho muitas saudades...

Adeus Avô...

Quinta-feira, Setembro 11, 2008

XXII.X.MMV



O Amor vestido de negro sorriu-me maliciosamente ao balcão. Já o conhecia de um outro bar, há já algum tempo atrás. Do que conhecia dele, julgava-o um tipo afável, terno e meigo. Com um daqueles olhares inocentes de criança, capaz de te fazer sorrir, mesmo quando as lágrimas te correm pelo rosto… Julgava-o um tipo simpático, de asas inquietas e sorriso pueril, capaz de depositar um sorriso alado em mim… julgava-o capaz de me fazer estremecer quando o sentisse por perto… De facto assim foi… durante algum tempo. Devia ter desconfiado daquele sorriso… Devia ter desconfiado daquele olhar… No início, todas as noites o encontrava naquele bar, ao balcão. Sorria… timidamente vestido de negro, de asas recolhidas, mas reconheci-o assim que o vi. Tentava disfarçar e não olhar para ele uma segunda vez… Devia ter desconfiado daquele sorriso…
Saía de lá com medo dele… Não o medo que se sente quando somos crianças e temos medo do escuro. O medo que se sente quando se desconhece o que vem a seguir. O tempo foi passando. Continuei a evitá-lo. Um dia entrei e olhei-o nos olhos, sem medo… admiti que ele estava lá… tinha voltado… No início… era tudo tão mágico! Todos os dias voltava à espera de o encontrar. E lá estava ele, todos os dias, a sorrir-me de longe, a fitar-me à distância. Saía de lá com um sincero sorriso nos lábios. O dia a seguir voltava. E ele lá estava. Devia ter desconfiado daquele olhar… Voltava porque sabia que o encontrava. Saía de lá radiante, tudo parecia tão perfeito… Depois, encontrava-te por aí, e nessas alturas sabia cá dentro que o Amor estaria à minha espera essa noite. Encontrava-te… Sorria… Sabia que a culpa daquele sorriso estúpido esculpido no meu rosto era dele e não tua… Era ele que tinha o poder de me fazer sorrir apenas por te olhar…
Um dia entrei, sentei-me ao seu lado. Podia sentir o seu amargo perfume (não cheirava a nuvens, como eu julgava), pude fugazmente vislumbrar o negro inebriante das suas recônditas asas sob aquele aspecto tão humano. Encarei-o. Abri um daqueles sorrisos inocentes, como todos os sorrisos apaixonados, e disse-lhe: “Ele é o sol que me doira os cabelos, o orvalho das manhãs de nevoeiro, é a água salgada que me queima a pele, o algodão doce que me cola os lábios… É a nódoa de gelado na minha blusa, o cheiro tépido da chuva na terra molhada, é a criança de olhar cândido que encontro na rua. Ele é o cheiro do chocolate quente junto à lareira, a gota de água que me arrepia, é a borboleta lilás que me pousa na mão… É o floco de neve que morre na ponta dos meus dedos, a maçã verde que trinco, o pequeno pássaro que alegre saltita à minha frente, a bola de sabão que desaparece na ponta do meu nariz. Ele está em cada poema que escrevo, em cada música que me faz chorar, em cada pedaço de mim, em cada pedra da calçada…Obrigada.”
Levantei-me e saí. Ele continuou a sorrir-me. Devia ter desconfiado daquele sorriso… Continuei a vê-lo. Ainda o vejo. Nunca mais o procurei encostado ao balcão. Mas continuo a encontrá-lo todos os dias, em todo o lado. Continuo a esbarrar-me com ele inesperadamente no dobrar de cada esquina. Tento mesmo fugir dele, mas, ainda que de asas recolhidas, rapidamente alcança a minha reles condição de humana. Acho que os deuses invejam de tal forma as lágrimas humanas, que deixam o Amor rasgar o etéreo véu do Olimpo para nos mostrar o seu verdadeiro significado…

Sexta-feira, Junho 13, 2008

Obrigado!


Depois de meses à procura da perfeição de cada verso, da irrepreensível harmonia de cada estrofe, depois de inúmeras correcções e revisões, entreguei-te todos os poemas que guardo há anos num velho caderno de capa preta.
Antes de te deixar espreitar para dentro de mim, falei-te do quanto a tua opinião era importante. Leste as primeiras páginas ao meu lado e sorriste, enquanto fechavas o caderno e me dizias que escrevia muito bem, mas que isso eu e toda a gente que ouve a minha música já sabia. Obrigado! Sufoquei as lágrimas na garganta e sorri.
Nesse instante soube que não me leste. Se o tivesses feito, saberias que são bem diferentes das músicas que escrevo. Essas espelham apenas sentimentos camuflados, apenas aquilo que os outros querem ouvir, o que por vezes os espartilhantes acordes da guitarra do Kapa decidem. Se o tivesses feito, saberias que eu queria que soubesses de mim tudo o que mais ninguém sabe... Mas não quiseste. Não me procuraste em cada linha, não me encontraste em cada verso, não me sentiste em cada vírgula... Não soubeste todas as vezes que os aperfeiçoei até os sentir perfeitos aos teus olhos, não soubeste as palavras que tantas vezes eu ansiei ouvir-te dizer... Obrigado!
Sorri. Como sorrio e agradeço depois de um concerto em que todos sorriem e eu me sinto morto por dentro.
J. T.

Quarta-feira, Maio 28, 2008

3 - Geometria descritiva


Tenho saudades tuas... Já passou tento tempo e continuo a amar-te exactamente como no dia em que me deixaste plantada à tua espera no altar... A minha mãe insistia para irmos embora. Eu sabia que tu ias chegar a qualquer momento. "- Aconteceu alguma coisa, tenho a certeza. Ele deve estar a chegar." Mas nunca chegaste... Eu sei que nada acontece por acaso, mas pergunto-me porquê eu até hoje... Aquele que devia ter sido o dia mais feliz da minha vida, ficou marcado pela morte das pessoas que eu mais amo...
Ouvi tantas vezes as pessoas dizerem-me com palmadinhas de reconforto nas costas que um dia ia encontrar alguém e ser feliz que cheguei a acreditar nisso. Pensei que com o tempo aprendesse a viver sem ti. Tenho tentado ocupar o vazio que tu deixaste cá dentro, mas não dá... Nenhum homem me percebe como tu, nenhum me conhece como tu... nenhum me ama como tu... Sonho tantas vezes contigo... Queria tanto poder trazer-te de volta... traçar linhas de fuga ortogonais, desenhar-te a três dimensões e dar-te vida... Dava tudo para te ter comigo.
Sabes, nos primeiros meses pensei que ia acabar por me matar. Quando veio a primeira depressão, tentei mais do que uma vez, mas não tive coragem. Acho que tenho demasiado medo da morte para morrer... Sou demasiado cobarde para dar uma de heroína de história de amor que trespassa o coração com uma espada porque perdeu o seu amado. Quando era miúda adorava histórias de amor para sempre. A primeira vez que li o Romeu e Julieta pensei que queria um amor assim. Se não te posso ter, mais vale morrer. Parecia-me um bom lema de vida. O livro era da minha mãe e na contracapa ela tinha escrito a frase "Ominia uincit amor" e mais qualquer coisa. Queria dizer: o amor tudo vence. Não me lembro do resto, nem do autor, mas nunca mais me esqueci desta frase. Mas o amor não vence a morte... Se assim fosse, estavas aqui comigo. Outro dia encontrei a versão inglesa do livro numa feira de velharias. Reparei que afinal o título é The Most Excellent and Lamentable Tragedy of Romeo and Juliet. Nem o Romeu e Julieta é uma bonita história de amor! Começo a acreditar que não há verdadeiras histórias de amor com finais felizes...
S.M.